Santo escalda-pés. Como assim, uma psicóloga lavar os pés? Sim. Isto, mesmo. Acha que extrapolei? E depois, ainda, estimulei os pontos certos para mandar a depressão embora, como aprendi. Quando a conheci, ela lamuriava a perda do marido, ainda recente. Era só: “quero ir embora, também” - “agora de quem vou cuidar?” - “não quero ser um peso para meus filhos, que já têm seus filhos”... Quase não se ouvia sua voz baixa e chorosa, de lamentação. Ela me mostrou algumas fotos em... preto e branco. Seu vestido de casamento, guardado e esmaecido. Eles iam para a chácara e ficavam cada um numa rede, jogando conversa dentro. O que aconteceu foi de repente. Seu marido adoeceu, fez cirurgia e não resistiu. Partiu, perto do natal. Por vezes, ela perguntava à filha se foi ao velório: “claro, mamãe, você não saiu do lado”. Ela sabia. Mas preferia não saber. Queria tirá-lo daquela caixa fria e levá-lo para o calor da rede. Na chácara. Mas, ele se foi antes dela e isso lhe dava raiva e medo, misturados à tristeza. Acabou doando seu olhar para ser enterrado junto. Ficou só. Vivendo, talvez, por insistência divina. Da sua parte, ficou sem vontade de coisa alguma. Nem de respirar. Lamentou ter saúde. Não queria ver ninguém. Muito menos receber gente diferente, como eu. Confesso que me perguntei o que fazia ali. Foi quando, intuitivamente, veio a idéia do escalda-pés.
Algo tão milenar, que suscita a humildade. Me animei num tímido pedido para lavar-lhe os pés. Ou seria para lustrar-lhe a alma? Foi, então, que da cartola não saiu um coelho. Saiu sal grosso, ervas, óleo essencial, estímulos - precisos e suaves... Na penumbra... com música que ela gostou um dia... Foi assim. Ela se deixou tocar de olhos fechados. Pude sentir sua alma macia. Nessa pequena dimensão de tempo, a puxei para a superfície. Havia, ainda, uma pequena chama dentro dela. Vívida. Querendo escapar para fora e iluminar a vida que lhe resta. Na despedida, ela me olhou nos olhos pela primeira vez. Agradecida. Beijou minha face. Na noite fria, fui caminhando, lentamente, até o carro - o coração quentinho e gratificado por tê-lo seguido.
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