A Menina que pensava demais


Fazia tempo que eu não entrava numa igreja, no caso, num mosteiro. Quanto mais assistir uma missa inteira, com cantos gregorianos. Bem bonito de ver e ouvir. Me senti personagem de um livro do Umberto Eco. Desde pequena, quando achava que seria pecado admitir, as missas me pareciam intermináveis. Ainda são. Mas vale a pena toda energia boa que lá circula. O cheiro de defumador (ia escrever incenso), que exala por todo ambiente. Comecei a tossir pois entrou fumaça na garganta e me senti um pouco sufocada. Fiquei de pé lá na frente por falta de lugar. Meus pés gritavam. Eu olhava para o alto do altar. Via as imagens me observando. Deu quase tontura e me imaginei caindo e alguém me oferecendo um lugar. Não consegui prestar muita atenção nas leituras sagradas, mas prestei na quantidade de folhas que ainda faltavam ser lidas. Olhei os padres ou futuros padres beneditinos sentados e compenetrados. A maioria estava de olhos fechados. Pensei se algum estaria cochilando. Que coisa feia da minha parte, eu sei. Sei? Claro que estavam introspectivos e mergulhados em oração. Li que seguem a tradição do ora et labora (“ora e trabalha”). Eles tinham livros de cânticos nas mãos e as leituras eram intercaladas com vozes que arrepiavam na alma. Tinha gente, como eu, que estava lá na frente e buscava um degrau para sentar. Outra, apoiava a bolsa naquele móvel onde as pessoas se ajoelham. Algum celular foi esquecido de ser desligado e vez ou outra um barulhinho de whatsapp. Talvez alguém pedindo para que rezassem por ela. Ou que o dono do celular mandasse uma selfie de frente para o altar. Pensa que não, muita gente fez selfie no final, sim. Avistei uma amiga de muitos anos me acenando do outro lado do corredor. A fiz entender com gesto que não iria até lá naquele momento. Imagina, atravessar sob tantos olhares. Só sei que em determinado momento, me vi numa fila que surgiu do nada que era para receber a hóstia ou Corpo de Cristo. Pensei que na minha infância o “Corpo” parecia bem menor e cabia direitinho na boca. Agora, me pareceu um imenso círculo leitoso. A menina pequena que fui estava presente e um tanto horrorizada com tais pensamentos. Seria heresia? Ela tinha medo de queimar no inferno. Sua mãe a mandava para a igreja e assim foi até a primeira comunhão e parte da juventude. Nunca falou para a mãe o medo que sentia de olhar algumas imagens ensanguentadas ou dentro de um caixão de vidro. Além do medo, a culpa e vergonha de pensar o que pensava. O pecado que era pensar... E seus pensamentos sempre foram ousados para sua idade. Voltando, agora... Algumas pessoas recebiam a hóstia nas mãos sobrepostas e a colocavam na própria boca. Outras, aguardavam de boca aberta. Observei para acertar e fazer sem errar. Na dúvida, optei pela segunda alternativa. Dizem que não se pode mastigar a hóstia e não mastiguei. Mas, o Corpo de Cristo grudou no céu da boca. Pensei: “tudo bem, está num tipo de céu”. Quase ri. E minha língua, nada religiosa, ficou alucinada querendo investigar e absorver o inesperado. A menina reprimia o pensamento. Aí pensava mais ainda. Finalmente, ouvimos a frase para seguirmos em paz. No final da missa, fui até minha amiga. Feliz reencontro. Ela queria uma selfie nossa. De frente para o altar com os vitrais maravilhosos. Naturalmente, depois de tudo isto, a menininha dentro de mim pensou se tais pensamentos e observações eram mesmo pecado. Mas lembrou da única parte da leitura na missa que conseguiu guardar: “não julgais ao próximo e saibas perdoar, até um santo pode ter cometido pecado. Todos merecem o reino dos céus.” Até os que escrevem o que pensam.

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