Merci cher Highlander


Tem gente que só fala em câncer entre sussurros, dado o medo ou impacto que, ainda, causa. Entretanto, há aqueles que não só falam, como opinam, riem ou discutem o diagnóstico com maestria. Ainda dizem: “é o que temos para hoje, o jeito é lidar”. Conheço um desses. Eu o apelidei de Highlander, tamanha sua força e destreza em lidar com a doença e encarar o que tiver que ser.
Sejam Cirurgias, quiomio, radioterapia ou o que precisar fazer. Ele encara. Com distinção e louvor, ele brinca. Tira sarro de tudo, não lamenta ou se vitimiza. Eu me seguro pra não jogar-lhe confetes demais. Ele não gosta. E nem está no face e curtirá o que escrevo agora. Sei que está indo para a décima cirurgia no novo ano. Mas, como ninguém é de ferro, meu caro Highlander irá antes para Paris. Lá as filhas, genros e netos o esperam para o natal. Já faz planos de se vestir de papai noel e recitar em francês para os netos que o observarão da janela: "Je suis Père Noël et j'apporte des cadeaux pour les enfants". Não é o máximo? Pensei nele enquanto fazia um exame chato de ressonância. Naquele túnel infernal, prendendo respiração, fazendo manobra de esforço, recebendo contraste e ouvindo barulho ensurdecedor da máquina... Fichinha. Pensei, se ELE tira tudo de letra, isso é, apenas, um exame. Fiquei quietinha. Colaborei. Não reclamei.
Foram minutos que pareceram uma eternidade. Pensei no quanto a vida é tênue e majestosa ao mesmo tempo. No quanto seria bom sair de lá, tomar um bom café com leite e traçar pão com manteiga. Sentir o calorzinho do dia seguindo seu rumo. Tudo tão, simplesmente, único. É isto. Feliz natal e "merci beacoup cher Highlander". Feliz natal, todo mundo do face e da vida real. Que ela seja especial e gratificante, todos os dias.

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